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Carlos Frederico

crítica literária in Diário do Minho (suplemento cultural) de 27/03/2019

Inspirado nas histórias que contava para adormecer as suas filhas, o autor, para além da interessante veia poética que simultaneamente cultivava, lançou-se na simpática e não menos frutuosa tarefa de passar a papel o que na hora de dormir mais alimentava a sempre interminável e curiosa fantasia das crianças…

 

E assim nasceu este belo livro infantojuvenil, como feliz complemento de outros tipos de escrita igualmente do agrado de Carlos Frederico, ainda que fosse este, de facto, a merecer a sua natural preferênciaaté como excelente pretexto para a motivação dos seus alunos…, pois o autor é professor de português do ensino básico no Conservatório Calouste Gulbenkian de Braga.

 

As sucessivas histórias, para além de adequadas à faixa etária a quem se destinam, surgem-nos com avanços e recuos bem delineados e de perfeita articulação de ideias, o que mantém o leitor sempre atento e curioso para o que virá a seguir…

 

No conteúdo se privilegiam, também, as circunstâncias espácio-temporais, bem como a temática a elas relativa:

 

- A personagem principal, oriunda do Sul do país (tal como o escritor), viaja para o Norte, onde melhor se vivencia o Natal à minhota (na lareira, a ouvir as histórias do avô, págs. 10/11); enquanto os homens bebiam o seu porto, os rapazes brincavam com o cão, Pantufa, e as mulheres punham a conversa em dia… pág. 15);

  - A curiosa referência à sardinha assada no S. João de Braga – uma das maiores festas de sabor popular do Norte do país – (pág. 25), com uma não menos interessante quadra alusiva (pág. 25), em perfeito contraste com a selva de pedra das grandes cidades que circundavam a bucólica paisagem do Fontanário da Casa de Pedra (págs. 29/30).

 

Deveras sintomática e oportuna, igualmente, a simbologia do texto no tocante às lições morais que dele podemos extrair. Entre vários, temos os exemplos da vitória do Bem sobre o Mal

 (o frade aspergiu água benta e o diabo esfumou-se, recuperando o penitente a sua alma - pág.22); e da ambição e ganância que não levam a lado nenhum… - (págs. 34/35)

 

1.    A Linguagem

 

 - O texto apresenta-nos uma estrutura bem conseguida, com linguagem clara, concisa e devidamente contextualizada, como, por exemplo, são os casos de frases de sabor popular: por hoje já me governo (pág. 33); sorriso de orelha a orelha; colocou um embrulho dentro do saco à socapa… (pág. 57).

 - Casos de expressões estilisticamente elaboradas, como, por exemplo: as metafóricas … mostrava o tropel de sentimentos que lhe iam na alma… e lutando por esconder uma lágrima do seu saco lacrimal… (pág. 59);

 - Ou, ainda, do termo playstation, vocábulo modernista tão do agrado (e proveito…) dos nossos miúdos de agora…

                                               

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Estamos, pois, perante uma obra que vivamente se aconselha, já que, numa época toda ela voltada para o obsessivo uso dos computadores, cada vez mais se torna fundamental incutir nas crianças - e logo desde muito cedo - o gosto pelos livros e pelos bons hábitos da leitura…

Acrescenta-se que é sempre de saudar o aparecimento de novos escritores, naturais ou residentes nesta nossa nobre cidade de Braga. Significa que, culturalmente, a cidade cresce em qualidade e nós, os leitores, deveremos acolher estas iniciativas com carinho e encorajar a produção de mais obras dos nossos autores, cujo valor é inegável. O Natal do Avô Carlos poderá ser adquirido nas principais livrarias da cidade (Centésima Página, Bertrand, Livraria Bracara) nas lojas FNAC e encomendado, online, nas páginas da Wook, da Bertrand, da FNAC e da própria Chiado Books que o editou. O valor de cada exemplar é de cerca de 11 euros.